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Defesa da educação voltada para a emancipação da classe trabalhadora marca palestras PDF Imprimir E-mail
Seg, 18 de Junho de 2012 18:38

No primeiro dia do III Encontro Capixaba de Assistentes Sociais, palestrantes defendem a necessidade de uma educação emancipatória para a construção de uma nova sociedade

Mesa da Conferência Magna: “Educação no e para o Brasil” - “Análise da Política de Educação no Brasil”

 

A Conferência Magna: “Educação no e para o Brasil” - “Análise da Política de Educação no Brasil”, realizada no primeiro dia do III Encontro Capixaba de Assistentes Sociais, no dia 14 de junho, teve dois momentos.

 

No auditório da faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, a primeira palestrante da noite, a professora no curso de Serviço Social e do programa de pós graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Maria Beatriz Lima Herkenhoff, fez um resgate histórico dos caminhos da educação no Brasil.

 

No segundo momento, a palestrante Ana Carolina Galvão Marsiglia, graduada em Pedagogia pela Unesp (Bauru), doutora em Educação Escolar pela Unesp (Araraquara) e docente do Centro de Educação da Ufes, criticou o currículo escolar e a formação dos professores.

 

Em comum, as duas defenderam a necessidade de a classe trabalhadora tomar para si os rumos da sua educação, como forma de construir uma sociedade verdadeiramente emancipada.

 

Um pouco de história

Herkenhoff fez uma breve análise histórica da educação no Brasil. Para a professora, a educação foi pensada por muitos anos como uma proposta compensatória. E não numa perspectiva emancipatória.

 

“Esse pensamento durou até a década de 50. Coloca o outro como portador de deficiência que precisa ser compensada. Pela lógica do assistencialismo e não da cidadania. Ele sofreu resistências com o Paulo Freire, com as ligas camponesas. Mas com o golpe militar, os movimentos são reprimidos, e tem todo um retrocesso nesse processo”, contou.

 

A partir daí, a política educacional foi recriada na perspectiva da acumulação de capital, como mero fator de produção, como capital humano empreendedor, individualista, disse a professora.

Professora Maria Beatriz Lima Herkenhoff

“Virou um fetiche. A educação sozinha iria salvar o país do subdesenvolvimento. Como se ela tivesse o pode de mudar, independentemente das relações de força e as propostas de compreensão de mundo”, expôs.

 

Para Herkenhoff, é importante compreender a educação como mecanismo fundamental na construção da contra hegemonia, para uma leitura mais crítica da sociedade.

 

“Por isso há a necessidade de a classe trabalhadora encontrar mecanismos de controlar a sua educação. Tornando a sua ação em práxis e não em mero ativismo”, cobrou.

 

Mas ela ressaltou que para isso é necessário outro tipo de educador. “Que irá estimular a autonomia, a pensar criticamente a realidade, aqui falo da criança, desde a creche. Educadores que desenvolvam novas formas de pensar o mundo e trabalhar identidade. Contextualizando, articulando os saberes, com leitura global dos acontecimentos. Educando para a ética da compreensão. Essa visão leva à interdisciplinaridade”, ensinou Herkenhoff.

 

E a professora conclui defendendo que “para isso é necessário formação permanente e educação integral”.

 

Aposentadoria

Antes de passar a palavra para a segunda palestrante da noite, o coordenador do debate, Rafael Vieira Teixeira, lembrou que a professora está perto de se aposentar. E lhe fez uma breve homenagem com palavras.

 

“Ela é muito querida, ficamos saudosos. E quisera todos nós chegar à aposentadoria tão bela e clara na forma de se expressar. Você foi minha professora e merece essas palavras”, disse Rafael.

 

Ruptura

A professora Ana Carolina Galvão Marsiglia, começou falando da pedagogia histórico-crítica e citando Demerval Saviani, que segundo ela, é a maior referência dessa linha.

 

“Para ele, a educação é um tipo de trabalho não material. Produz idéias valores, princípios. A definição de trabalho educativo para ele se realiza nas escolas, nas religiões, mas o espaço por excelência para isso é a educação escolar. Porque ela é um espaço formativo sistematizado e organiza a transmissão da cultura”, explicou.

 

Ela defendeu que a educação escolar trabalha com a cultura erudita e não com a popular, mas nem por isso é elitista. “A cultura popular já é do povo. A escola tem que garantir o que eu não tenho. Preciso de profissionais com formação especializada e que atuem em condições objetivas. E é isso que estamos discutindo na greve: que condições temos”, defendeu, citando a atual greve dos professores e técnicos das universidades federais.

 

E ela continuou citando uma frase do psicólogo russo Lev Semenovitch Vygotsky, “a função do professor é ensinar o que o aluno não tem diante dos olhos”. É por isso que ele é aluno, porque ele não tem essas visões, completou.

Professora Ana Carolina Galvão Marsiglia

Mas Marsiglia fez duras críticas ao currículo escolar. “No ano letivo tem Carnaval, Dia do Índio, Páscoa, dia das mães, aí vem o recesso escolar. Depois 7 de setembro, 15 de novembro, são dias letivos para ir na escola cantar o hino nacional. Dia da criança, dia da consciência negra e já estamos em dezembro. A escola fez de tudo, menos o que tem que fazer: ensinar português, matemática, geografia”, sentenciou.

 

E também não poupou a formação dos professores que, para ela, está precarizada e acaba punindo o professor. “Tira o estudo e a teoria e coloca muita prática. Com isso, o professor tem sofrido como responsável individual pelo fracasso da escola. Para fugir disso ele culpa o outro, a família da criança, doenças que ela tem e por isso não aprende, como dislexia, déficit de atenção”, disse.

 

Sobre as doenças ela alertou: “o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDH) é uma das coisas que mais dinheiro tem dado para a indústria farmacêutica”, e em seguida ressaltou que “adeptos da psicologia insistem que isso não existe”.

 

Ela lembrou ainda que vários serviços necessários não estão disponíveis para os alunos, como a assistência social. E fez uma triste comparação. “O mesmo acontece com os assistentes sociais, que tem servido, e isso não é um desejo deles, ao atendimento da miséria como algo que faz parte da vida”.

 

Marsiglia concluiu dizendo que defende uma perspectiva na contramão da atual. “Nós temos nos isolado nos nossos campos de atuação e temos favorecido o capitalismo. Uma sociedade emancipada passa por uma educação emancipada. E verdadeiramente emancipada, só numa outra sociedade: no comunismo. Mas ela não é possível isoladamente. Isso exige uma ruptura”, afirmou.

 

E para finalizar, citou uma frase de José Saramago: “A única forma de liquidar com o dragão é corta-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não adianta nada”.

 

Debate

Ao final da apresentação da professora Marsiglia, os participantes do evento puderam fazer perguntas.

 

Ao ser questionada sobre o conhecimento popular e o erudito, Marsiglia ressaltou que o popular é importante, mas não dá para reduzir a educação a isso.

 

“Vamos negar ao aluno o conhecimento de conteúdos clássicos como a tragédia grega? O estudante no nordeste só vai conhecer a literatura de cordel? Não tenho esse direito”, defendeu.

 

Em resposta a outra pergunta, ela ainda ressaltou que a elite não abre mão de uma boa educação. E seus filhos estão preparados para vencer o mundo. “Enquanto não fornecermos à classe trabalhadora uma educação emancipatória, vamos mantê-la à mercê do capitalismo”, afirmou.

 

A professora Herkenhoff, em resposta a uma pergunta sobre o papel do assistente social diante do cenário exposto nas apresentações, disse que essas/es profissionais tem muito a contribuir. Ocupando esse espaço da escola, nesse diálogo com a educação popular, nesse olhar de transformação, da construção de ser humano por meio das lutas e dos movimentos sociais.

 

Veja mais:

Clique aqui e veja as imagens dos dois dias do evento.

 

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