CRESS-ES Entrevista Joselma Maria Pereira, camponesa, artesã, assistente social e integrante do MST | CRESS-17

CRESS-ES Entrevista Joselma Maria Pereira, camponesa, artesã, assistente social e integrante do MST

25/05/2021 as 7:30

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Em mais um CRESS-ES Entrevista, a gestão “É preciso estar atenta e forte” traz para a categoria a entrevista com a assistente social Joselma Maria Pereira, camponesa, artesã e integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Este conteúdo faz parte do XII Encontro Capixaba de Assistentes Sociais, junto com as outras entrevistas realizadas com profissionais que trabalham, diretamente, com povos originários e comunidades tradicionais, no Espírito Santo, ou que atuam nas causas dessas populações.

Afinal, o tema definido pelo conjunto CFESS/CRESS para o maio de 2021 é: “Há mais de 500 anos esses povos sempre na linha de frente! Trabalho pela vida e resistência dos povos originários e comunidades tradicionais”. No contexto da pandemia, de luta pela saúde pública e políticas sociais, é fundamental valorizar esses povos e a resistência secular dos sujeitos que fazem parte deles. E, também, as/os profissionais que estão diretamente envolvidas/os com eles.

Para falar sobre o MST, convidamos a Joselma Maria Pereira para contar um pouco mais sobre a sua formação em Serviço Social, assim como sobre as atividades desenvolvidas pelo movimento. Camponesa, artesã e Assistente Social, Joselma nasceu no Estado de Pernambuco e, desde 1998 está capixaba. Atualmente, mora no Assentamento Vale da Esperança, localizado no Município de Santa Teresa, na condição de assentada beneficiária do Programa Nacional de Reforma Agrária. O assentamento foi criado em 1997 pelo INCRA (Instituo Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e coordenado pelo MST.

Assistente Social, com formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Joselma concluiu o curso em 2015. A criação da 1ª turma de Serviço Social do campo aconteceu através da parceria entre a UFRJ e a Escola Nacional Florestan Fernandes, escola coordenada pelo MST, e do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). A indicação dos/as educandos/as que fizeram o curso foi realizada pelos movimentos sociais do campo, além do Movimento Sem Terra, o Movimento de Pequenos Agricultores e o Movimento de Mulheres Camponesas. O curso teve duração de cinco anos, e realizou-se na modalidade de alternância, explica Joselma.

Mais abaixo, nossa entrevistada fala sobre a rotina da/do trabalhador do campo, a organização política e social do MST e as lutas e os impactos causados pela atual conjuntura. Assim como sobre os desafios enfrentados, durante a pandemia; as políticas públicas que chegam até os/as assentados/as e acampados/as, além da sua formação em Serviço Social. Confira!

Pode nos falar sobre a rotina do trabalhador e da trabalhadora do campo no assentamento?

A rotina dos trabalhadores/as dos assentamentos de reforma agrária, não se deferência dos demais trabalhadores do campo. Muito cedo despertamos e iniciamos os diversos afazeres na unidade produtiva. Em virtude de o nosso trabalho realizar-se em regime de economia familiar, há um cuidado e orientação para envolver os membros da família na divisão e realização das tarefas, desde os cuidados com as culturas permanentes: café, pimenta do reino, na produção de culturas temporárias: feijão, milho, horta, etc. E dos cuidados com o horto, jardim, atividades doméstica, pequenos animais, entre outros.

Outro aspecto da nossa rotina, diz respeito a nossa organização interna, desde o período do acampamento o MST preza pela organicidade das famílias, oportunizando a organização, envolvimento e a participação de todos/as na vida social, política e produtiva do território onde se encontram. Estamos organizados em pequenos núcleos de famílias, destes, são indicados/as representantes para a coordenação geral e para os diversos setores e equipes internas, bem como regional. Essa mesma estrutura segue estadual e nacionalmente. Através desses espaços coletivos, realizamos frequentemente reuniões, assembleias, estudos e momentos de confraternização e celebração.

É importante destacar que são nesses espaços coletivos, onde sempre que seja necessário, são tomadas as principais decisões que diz respeito ao conjunto das famílias e a comunidade. Afirmar a importância e a participação de gênero em todas as instâncias  de tomada de decisão no conjunto do MST.

Pode falar, também, da organização política dos/as trabalhadores/as junto ao MST e a outros movimentos sociais do campo?

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma organização social que tem três grandes objetivos: a luta pela terra, a luta pela reforma agrária e a luta pelo socialismo. Para garantir esses objetivos, o MST se orienta pelo seu Programa de Reforma Agrária Popular.

Na luta pela terra o MST organiza os/as trabalhadores/as que têm interesse em retornar para o campo e conquistar um pedaço de terra para nele tirar seu sustento e sua família. A forma como o movimento tem organizado esses/as trabalhadores/as é através dos acampamentos, que são espaços montados à margem das BRs e rodovias. E, nesse tempo de espera, enquanto as famílias aguardam o assentamento, ocorrem vários processos de formação para todos os membros da família. O tempo de espera é, também, o tempo de formação política.

A desapropriação da terra, a criação do assentamento simboliza o inicio da luta por Reforma Agraria, pois trata-se da continuidade da luta pela garantia dos programas e projetos sociais direcionados a população do campo junto aos gestores municipal, estadual e federal, a fim de garantir a permanência e  as condições de trabalho na terra. O MST propõe, em seu projeto de reforma agrária popular, a produção de alimentos saudáveis, o cuidado com a natureza e com os indivíduo, vivência coletiva e a busca de direitos básicos e primários desde saúde, educação, infraestrutura, lazer, cultura, etc, ou seja, garantia de dignidade para a população do campo.

A transformação da nossa sociedade passa por uma luta ampla dos trabalhadores/as do campo e da cidade. No campo, o MST participa da organização da Via Campesina que objetiva unificar as pautas dos movimentos sociais do campo, (Comissão Pastoral da Terra, Movimento dos Pequenos Produtores, Escola Família Agrícola, Movimento de Mulheres Camponesas, entre outros. Nesse período pandêmico, as lutas que estão sendo travadas por esses movimentos, são “Vacina para Todos”, “Defesa do SUS”, “Auxílio Emergencial de R$ 600 até o fim da pandemia”. E, por último, “Fora Bolsonaro”. Fora um governo que não tem compromisso com os/as trabalhadores/as. Por enquanto, não podemos ir às ruas. Mas não deixamos de fazer essa luta com os instrumentos que dispomos.

Como o desmonte das políticas públicas interfere na atuação do/a trabalhador/a do campo?

O desmonte das políticas públicas interfere diretamente na vida de todo/a trabalhador/a seja no campo ou na cidade. Foram muitas as lutas para as  garantias de direitos através de programas e de políticas públicas públicas, e agora  estamos vendo o desmonte por parte do governo e da política econômica que privilegia o capital em detrimento a condição de dignidade dos/as trabalhadores/as.

Para nós, assentados/as e acampados/as, o principal desmonte tem sido a negligência do Programa Nacional pela Reforma Agrária, por parte do governo federal. É por essa negligência que as demandas de desapropriação de áreas para assentar as centenas de milhares de trabalhadores/as que aguardam para serem assentadas, não se efetiva há vários anos, seja no ES como em todo território nacional.

O sucateamento do principal órgão que cuida do PNRA, o INCRA, atualmente, o Instituto tem como prioridade a titulação das áreas de assentamento. Ou seja, o governo federal, ao mesmo tempo em que não cria novos assentamentos, ao mesmo tempo, está emancipando as famílias já assentadas, titulando os lotes de reforma agrária e, assim, se isentando de toda e qualquer responsabilidade social para com as famílias assentadas e com a reforma agrária.

Hoje, o INCRA não dispõe de recursos financeiro e humano para dar acompanhamento técnico nas áreas, não tem realizado vistoria em áreas para futura desapropriação, não cria novos assentamentos, não tem habitação rural, acabaram os recursos para projetos de infraestrutura básicas nas áreas de assentamentos, corte nos recursos do Pronera. E nesse período pandêmico o federal nenhuma ação de ajuda aos trabalhadores/as do campo. O PNAE, o Programa de Alimentação Escolar, foi interrompido pela suspensão das aulas presencial, o que afetou  as unidades familiar especialmente na diminuição de renda.

Como você observa as particularidades das mulheres trabalhadoras rurais e das mulheres do campo?

Nós mulheres trabalhadoras do campo, das águas, da floresta: indígena, assalariada, quilombolas, camponesa, sem terra, ribeirinha, pescadora, extrativista, todas nós temos em comum a relação com a terra e com a natureza realizando diversas atividades para garantir as condições de sobrevivência – temos dupla, tripla jornada de trabalho diariamente, por vezes diuturnamente. Para além do trabalho na terra, também somos as provedoras dos/as filhos/as, cuidamos dos pequenos animais, somos responsáveis pelos cuidados das ervas medicinais, dos jardins, estando também na labuta do entorno da moradia, e nas atividades doméstica, entre outras.

Para essa população, secularmente houve o neglicenciamento de direitos, por vezes, as próprias mulheres não toma conhecimento de sua realidade. Porem, onde as mulheres estão envolvidas em algum núcleo – associação, grupo de mulheres, movimentos sociais, sindicatos, cooperativas – juntar-se a outras para dialogar sobre a sua situação e de outras mulheres do campo, fortalecendo-a e empoderando-a com saberes sobre e para se.

Quanto mais envolvimento e organização nós mulheres tivermos com outras mulheres do campo e da cidade, aumentam-se as oportunidades e as chances de denunciar as violências e violações sofridas por nós. Mas também afirmar nossa luta em defesa da vida, terra, água, sementes, trabalho e por soberania alimentar e popular. Nossa luta também deve ser pelo acesso ao conhecimento, ao direito de participar com igualdade de gênero e assumir espaços de lideranças.

Como a pandemia afetou a dinâmica no trabalho rural?

Essa crise sanitária tem afetado a todos/as, mas em nossos assentamentos e acampamentos a pandemia tem afetado principalmente nossa com vivência coletiva. Temos respeitando o distanciamento social, uso de máscaras e álcool. O MST tem orientado a todos os trabalhadores/as para fazermos o isolamento produtivo, ou seja, ficar na roça produzindo alimentos saudáveis para o sustento das famílias, para as campanhas de doações e para ofertar/vender aos gestores públicos e entidades, para compor as cestas de alimentos que estão sendo doadas as famílias em vulnerabilidade social.

O distanciamento afetou nossas formas cotidiana de nos comunicarmos, mas pela necessidade de informações e repasse de noticias, fomos nos ajustando a  outras formas de comunicação , rompendo o silêncio.

Pode nos contar sobre as ações do MST neste contexto de pandemia?

O MST tem realizado diversas ações direcionadas interna e externamente.

Internamente: vários médicos/as, enfermeiros/as, agentes populares do coletivo de saúde do MST têm realizado diariamente orientações e cuidados contra a Covid-19; Mantermos o isolamento social, não realizando atividades coletivas e convocando a militância para estudar – seja individualmente ou coletivamente participando dos diversos cursos de formação online; temos o Programa Plantar Árvores (100 milhões em 10 anos) em todas nossas áreas objetivando melhorar nosso planeta para as próximas gerações. E por fim, a Resistência Ativa: isolados, mas não em silêncio, mantendo os anúncios e as denuncias nos meios de comunicação possível.

Externamente: O MST tem motivado e mobilizado toda sua base social para aumentar a produção de alimentos saudáveis, especialmente para que possamos continuar praticando um dos nossos principais valores, a SOLIDARIEDADE, seja doando alimentos, realizando campanhas de doação de sangue nos hemocentros, entre outras.

Como se dá o contato entre trabalhadores/as rurais e os equipamentos e políticas sociais do Município/Estado?

Ocorre principalmente quando  os  trabalhadores/as buscam os equipamentos (especialmente os CRAS  e os PSF), por serem esse dois equipamentos mais requisitados pelas famílias, especialmente as famílias acampadas que precisam está cadastrada no Cadúnico enquanto pré-requisito  para ser assentada, mas também para garantir o recebimento dos valores do bolsa família, e outros programas ali contido.

A distância  e as dificuldades de deslocamento da roça até a cidade onde estão localizados os equipamentos, é um dos fatores do distanciamento do uso por esse publico do campo aos serviços e equipamentos sociais. Outro fator relevante é a falta de informação sobre os serviços e equipamentos e como acessá-lo.

Há algum trabalho de mobilização ou de articulação política entre os/as assistentes sociais, que atuam nos equipamentos e com as políticas sociais do município, e o assentamento?

Nos assentamentos e acampamentos onde o MST coordena, sempre orientamos aproximar-se das Secretarias de Ação Social do município afim de apresentar as demandas das famílias.

Por vezes, os assistentes sociais procuram as lideranças das áreas para manifestar interesse em apresentar algum programa ou atividade, nem sempre o que nos é apresentado está contido nas nossas principais necessidades.

Há em alguns assentamentos experiência bacana entre os assistentes sociais e os assentamentos, especialmente onde ocorre CDA (Compra Direta do Produtor) A Secretária de Ação Social compra os produtos dos assentados para compor as cestas básicas que são entregues as famílias em vulnerabilidade social.

Há também boa receptividade dos profissionais do serviço social todas as vezes que as famílias e os coletivos buscam informação ou serviço junto às Secretarias de Ação Social e outros equipamentos.

Infelizmente os equipamentos sociais estão no espaço urbano, onde se concentram os/as profissionais que mal dão conta das demandas que se apresentam lá, e, os/as gestores/as, não têm se voltado para as demandas das famílias do campo, alegam falta de recursos, falta de profissionais, e por fim, falta de políticas e programas voltados para a população do campo.

Qual a contribuição da sua formação em serviço social para sua atuação como trabalhadora e militante?

Ao longo dos anos de militância política no MST, fui oportunizada a diversos processos de formação, especialmente no cotidiano das famílias acampadas e assentadas, sendo requeridos a responder as várias demandas dos trabalhadores/as mesmo antes dos inúmeros programas e políticas sociais, hoje existentes.

Sem querer ser pretensiosa, posso afirmar que alguns programas e algumas políticas sociais voltados para o campo foram pensadas pelo MST e resultante de vários processos de lutas. Exemplo, o PRONERA (Programa de Educação na Reforma Agrária) que objetiva oportunizar acesso a escolaridade aos trabalhadores/as do campo. Logo, o curso de Serviço Social me ajudou muito, me qualificando técnica e politicamente para melhor orientar o/a trabalhador/a do campo e da cidade.

Há algo que não abordamos que você gostaria de acrescentar?

Parabenizar a todos/as trabalhadores/as rurais e, os/as assistentes sociais, pelo nosso dia. Ainda que estejamos num período pandêmico, e nos falta motivações para comemorar, nós sabemos da importância da nossa profissão e precisamos manter a esperança. E necessário resistir!

Parabenizar, ainda, o Conjunto CFESS / CRESS pelo tema norteador escolhido este ano, que coloca o/a Assistente Social a pensar sobre o direito à vida, não somente para a população urbana, mas também a do campo. É um tema oportuno para resgatar as questões dos povos originários, das comunidades tradicionais e dos/as trabalhadores/as do campo.

Ressaltar que nos assistentes sociais, estamos na linha de frente em tempos de pandemia, principalmente para pensar e agir a partir das demandas que estamos vivenciando por conta do quantitativo enorme de pessoas que, com a perda de seus postos de trabalho, passam fome e outras necessidades. Hoje são mais de 19 milhões de pessoas que passam fome no Brasil. É preciso que façamos alguma coisa, porque estaremos sendo requeridos a pensar alternativas. Como aproximar a população do campo que já é responsável por mais de 70% de toda alimentação que chega à mesa das famílias do campo e das cidades, e a necessidade de milhares de pessoas que não têm o que comer?

São homens e mulheres que constroem esse espaço todo dia, espaço de dignidade, de trabalhar a terra com respeito à natureza, ao meio ambiente, e produzindo comida saudável, sem uso de agrotóxicos, para seguir produzindo dignidade e soberania alimentar e popular.

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