
Mais para o final do mês de julho, no dia 25, será comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra, Latina Americana e Caribenha. E para celebrar essa data, o CRESS/ES convidou três assistentes sociais para conversar sobre a importância desse dia entre outras questões que envolvem a relação dessas mulheres com a data e as referências delas de mulheres negras, latinas e caribenhas.
A Assistente Social Alineane Barbosa Nascimento reconhece que a data, atualmente, é extremamente significativa para ela. Porém, seu primeiro contato com o dia 25/07 veio apenas no ano de 2015. “Fui convidada a falar para mulheres negras em um CRAS. Na ocasião, pesquisei sobre a data e, desde então, ela tem profunda importância na minha trajetória”, reforça.
Alineane é formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), lotada na Secretaria Municipal de Assistência Social no município de Jerônimo Monteiro, no Espírito Santo. A sua experiência de atuação envolve as áreas de assistência social, saúde, saúde mental, hospitalar e OSCs. E ainda é mestranda em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas, também pela UFF.
Sobre o Dia Internacional da Mulher Negra, Latina Americana e Caribenha ela considera que essa data deve ser cada vez mais divulgada, com as/os Assistentes Sociais desenvolvendo “atividades com a população usuária em relação a essa data, com o objetivo de promover um processo de aprendizado e reflexão do que é ser mulher negra, latina e caribenha nesta sociedade”, pontua.
Esse entendimento passa, inclusive, pelas próprias referências de mulher negra, latina e caribenha que Alineane traz com ela, incluindo o fato de ser a primeira mulher da família a acessar o ensino superior, fato que lhe ajuda a entender que também é referência para outras mulheres.
A conversa segue logo abaixo. Confira!
O que é ser uma mulher negra, latina americana e caribenha?
Ser mulher negra, latina e caribenha é estar em um processo contínuo de aproximação com minhas origens e com meu lugar nesse sistema profundamente cruel com mulheres como eu. É ter que ter coragem para enfrentar os desafios cotidianos, assim como a obrigação de ser forte sempre, o que também é muito cruel. E desumano, às vezes, devido ao nosso lugar desfavorável nessa sociedade racista e patriarcal.
Também é ser militante da própria existência, ameaçada nos processos de acirramento das expressões da questão social; e de lutar constantemente para uma melhor posição nessa sociedade, se é que isso é possível.
É ter que provar minha capacidade mais do que as mulheres brancas, pois o racismo nos impõe essa condição. Ainda é estar sempre sendo colocada em uma caixinha, em um lugar imposto, mas também é lutar para modificá-lo. E é ter compromisso ético com as mulheres negras, latinas e caribenhas que atendo no meu dia-a-dia profissional.

Quais mulheres te ajudaram a construir essa referência ou quais são as referências para você quando pensa nessa mulher negra, latina e caribenha? E por que elas?
Minhas referências são as mulheres negras da minha família, que me passaram através da vivência cotidiana a maneira de “ser” enquanto mulher negra. Porém, eu iniciei um processo de conhecimento e reconhecimento do ser mulher negra tardiamente, que ocorreu tanto com o reconhecimento da beleza de meus traços negroides, até então negados a mim diante do reforço constante a padrões europeus de beleza; quanto com o aprendizado e letramento social em relação a minha história, a partir de uma perspectiva decolonial. Até mesmo o processo de me ver enquanto profissional de Serviço Social e, antes de tudo, de ser uma profissional negra, que traz esse aspecto impresso/gravado na construção da minha trajetória profissional, na maneira de me ver e de ser vista na profissão, se deu tardiamente.
Além disso, ler autoras negras e participar de grupo de estudo de gênero e raça também auxiliaram muito nesse processo de construção de referências. Entre as autoras estão Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo e, mais recentemente, Maria Carolina de Jesus. Além disso, considero que Benedita da Silva foi um exemplo, desde a graduação, devido a sua trajetória enquanto mulher preta e periférica que teve ascensão social inicialmente através do processo educacional, como se deu no meu caso. Educação que é direito constitucional, porém, historicamente negado a mulheres negras – as estatísticas demonstram essa situação – não sendo uma surpresa que eu seja a primeira da minha família a acessar o ensino superior.
Essas referências também te acompanham e te ajudam a pensar e a realizar o trabalho de Assistente Social? De que forma?
As referências me forneceram letramento social e consciência do que é ser mulher negra nessa sociedade que não superou o colonialismo e se apresenta extremamente racista. Apenas por ter nascido negra não me confere condições de analisar as relações sociais a partir do recorte de raça, sendo imperativo o estudo acerca dessa categoria. São leituras que me ajudam a pensar e a realizar o trabalho de Assistente Social, entendendo mais amplamente como as relações racistas interferem nas condições de vida da população atendida.
E você também se enxerga como referência a outras mulheres?
Não me enxergava como referência, mas como atuo em municípios interioranos, com baixa escolaridade entre mulheres negras e poucas profissionais negras, não é raro que durante o atendimento uma usuária, em geral uma mulher negra, se surpreenda de estar sendo atendida por mim. Sempre procuro parar e refletir um pouco com as usuárias sobre o fato.

Em relação a ser referência, quando iniciei o mestrado as mulheres comemoraram de uma forma muito entusiasmada no grupo da família. Em um primeiro momento não entendi, até que uma das minhas primas expressou: “Ela chegar lá é como se todas nós tivéssemos chegado”. E isso me emocionou.
Infelizmente sou referência por ser, em muitos momentos, a única a acessar um espaço ou a ter uma oportunidade. Mas é positivo, pois as minhas irmãs, mulheres negras, podem se enxergar em um lugar diferente do que normalmente é imposto a elas.
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